“Fotojornalismo Cidadão”

Fotos: Fabio Guimarães/ Agência O Globo
Uma senhora de 80 anos, aposentada, filmou por dois anos a movimentação de traficantes de drogas fortemente armados, no Rio de Janeiro, da janela de seu apartamento em Copacabana. As fitas foram entregues à polícia em 2005, 33 horas de “uma contundente narração das imagens”. Ordens de prisão foram emitidas e muitos foram detidos, inclusive policiais. Em alguns trechos, crianças aparecem consumindo drogas, de arma em punho. Indignada com a violência, há poucos metros de casa, “Dona Vitória”, como foi chamada pelo jornal ‘Extra’, empunhou a câmera num ato de corajem e deu ao país um exemplo eloquente.
Antes disso, ela havia alertado a polícia, que não fez nada. Indignada, comprou a câmera parcelada em 12 vezes e começou a filmar. O testemunho fotojornalístico, a fome e sede de justiça, indignação incontida e o espírito que mantém os olhos abertos horas à fio, a espera solitária. “Temos que meter a cara”, diz ela , “O Brasil vai mudar!”. Dona Vitória mudou-se e não mora mais no Rio, quem sabe um outro mundo de sua nova janela, talvez a beleza desvelando-se ante seus olhos, emudencendo a voz, recompensando a alma.
Leia “Nos Bastidores”…
A popularização de câmeras digitais, a preços cada vez mais baixos, cria oportunidades para expressão de muitos novos olhares, como a internet e os blogs permitem, numa escala crescente, também a divulgação (‘Cidadão jornalista’ …) de testemunhos escritos.

Imagem feita por Alexander Chadwick, durante a evacuação de passageiros do metrô de Londres
No Brasil, o Grupo Estado, lançou o ‘Foto Repórter’, “Um canal para receber fotos de interesse jornalístico enviadas por qualquer pessoa, através de telefones celulares ou computadores via e-mail”, as fotos aprovadas pela editoria de fotografia, podem ser publicadas nos jornais do Grupo ou em outros veículos, através da Agência Estado. Pelas fotos vendidas, o autor receberá como remuneração o mesmo valor que é pago a fotojornalistas profissionais.

‘SP - Veículo que afundou o pneu no buraco formado pela tampa de bueiro levantada pela força da chuva, ontem (5), na Avenida do Estado, em São Paulo. 05/01/2006′ Foto: GIL MARQUES/FOTOREPóRTER/AE
Veja a Galeria de Imagens Foto Repórter.
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[update] - relacionado: Trecho de um artigo publicado no Fotosite, - 18/01/06 -
Por Juan Esteves (*)
“Eis que recebo em minha caixa-postal mais um importuno e-mail me convidando a ser um repórter! Novamente? Veio do Estadão, com um texto de muito mau gosto, enviado provalmente para uma lista de seu mailing, ou de uma lista comprada. Cuidado para quem envia seus e-mails!
Nele, com meu primeiro nome como personagem, descrevem uma cena no zoológico onde sou agarrado por um macaco. Mas, após “pagar o mico” (este trocadilho deve ter sido criado por um dos nossos geniais premiados publicitários! Que saudade do Oliviero Toscani! ) e tendo fotografado com meu celular a patética cena , posso vender esta imagem ao jornal e ganhar algum dinheiro. Sim! ganhar dinheiro com o suposto fotojornalismo. Com o meu público vexame!Não imagino a quem isso possa interessar!
Não sou formado em jornalismo, também sou contra a exigência do diploma para o exercício da profissão, (aliás, estranho, o Estadão compartilha desta exigência ) mas sou a favor de um jornalismo sério, aprendido nas boas redações, com bons profissionais, que se dão ao respeito.. Por sorte convivi e aprendi com vários deles, lendo-os ou compartilhando reportagens. Respeitar o leitor foi um dos melhores ensinamentos que tive e guardo preciosamente. Inclusive que a boa matéria não deve ser gerada pelo interesse exclusivo de um usuário, determinando a notícia, como os Googles da vida vem propondo.
Não se pode evitar que hoje exista um exército de fotógrafos de celular. São milhões de aparelhos somente no Brasil e o número aumenta exponencialmente. Afinal, cada vez mais a imprensa verdadeira é impedida de realizar seu trabalho. Hoje nos eventos das celebridades, nos casamentos do “alto bacanismo” noveau riche, seguranças trogloditas revistam convidados e profissionais em busca destes apetrechos nefastos. Deixamos publicar na imprensa somente o que nos interessa, manda a cartilha dos endinheirados, velhos ou novos!
A tal da “celebridade” hoje - que pode ser um qualquer, um banqueiro, um comerciante metido a bonitão que namora a bonitona famosa, ou um daqueles desconhecidos dos infelizes reality shows - é quem decide pelo editor de um jornal ou revista. Mas afinal, é um direito dela, nada mais democrático! Contudo, ao usar este direito de decidir se ela é ou não notícia, somente quando lhe convém, vai-se por água abaixo a credibilidade e a independência do jornalismo sério, pois se trata de uma manipulação das mídias, e o que é pior, aceita passivamente por muitas delas, marrons ou não.
O que é de se lamentar mesmo, é que esta nova modalidade de “fotojornalismo cidadão”, pasmem , é dirigida por profissionais da fotografia de talento comprovado, que passam a publicar o que o sujeito fez com seu moderno celular que fotografa! Melhor, baseado na simples fotografia enviada ou nas informações anexadas por interesse de quem envia. Difícil acreditar que estas milhares de imagens poderão ser julgadas e checadas. Difícil acreditar que não possam ser forjadas e aceitas.
Constantemente a imprensa mundial vem sendo bombardeada com montagens e manipulações de origem muitas vezes profissional. Ao leitor, as nossas desculpas , é claro, após o nosso engano! Poxa, não era nossa intenção remover aquele braço que estava ao lado do corpo! Compramos da agência a imagem assim! Quando aceitar que, o que o suposto fotógrafo pode querer é prejudicar seu vizinho, o comerciante da esquina, o primo chato, um desafeto, expondo a cena ao público? Ficar incomodando com o celular aquela vizinha que insiste em fazer topless em sua privacidade. Que ultraje! Já basta as “fontes”dos políticos que manipulam muitos jornalistas da área “plantando” notas!
Nada contra se utilizar a câmera que pode estar embutida em qualquer aparelho, mesmo que seja ele um liquidificador. A questão é quem opera a mesma. A facilidade de se forjar pautas, como aquelas pegadinhas feitas especialmente para os insuportáveis programas de domingo na televisão é evidente, e com certeza aumentará.
Não é de hoje que profissionais de outra área flagram momentos importantes destinados ao fotojornalista. Nem se pretende que isso termine. As melhores fotos da triste queda do avião de carga em Cumbica, foram feitas em formato médio por um publicitário que fazia umas tomadas do local no momento da queda. Suas imagens foram fundamentais na compreensão do fato. A queda do Concorde foi filmada por um amador que passava de carro próximo, e exibida no mundo inteiro, ajudou os peritos a achar a causa do acidente.
Também não é de hoje, que inúmeros editores emergentes, querendo aparecer, convocam fotógrafos de grife em outras áreas para estamparem imagens em suas páginas, buscando um glamour e um status que a sua publicação não tem. Até mesmo aqueles que outrora foram preteridos para grandes pautas, cumprem este papel, se esquecendo do que é “ralar” no dia -a -dia, fazendo o tal buraco de rua.
Ao reduzir os stafs da redação e os frilas para o aumento do lucro, só resta a estas redações convocar este exército de pessoas despreparadas para o discernimento do que é um jornalismo sério e de qualidade. Pior, relegam a inteligência e o repertório do leitor, que se esvai em grandes proporções, em busca de uma publicação que o respeite. Que não o trate como um idiota, capaz de comer gato por lebre.”
(*) Juan Esteves é fotógrafo e crítico de fotografia.
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