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Kiriri

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“…por isso, índios, de pele bronzeada e olhos de amêndoa, não temam, não tenham medo de enfeitar seus cabelos com nossas folhas. Não fraquejem. Vamos continuar…” (Cacique Lázaro)

11 de Novembro de 2005 – Despontam os primeiros raios de sol num céu ainda cheio de estrelas, quando um pequeno grupo kiriri sai de uma das casas ao redor da praça, anunciando o amanhecer, 10 anos anos depois, do dia da reconquista de Mirandela. Os kiriri seguem marchando. O som de flauta, zabumba e caixa misturando-se à suas expressões graves define o tom do início das celebrações.

Mirandela é o coração da Terra Indígena Kiriri. Localizada no noroeste do Estado da Bahia, distante cerca de 20 km do município de Ribeira do Pombal (importante centro econômico da região), até 1995 esteve ocupada por posseiros e fazendeiros não-índios que no início ali ergueram um povoado. O povoado passou à vila, ganhou status de sede do distrito de Ribeira do Pombal e quase foi emancipado à município. Na década de 1980, a proposta foi posta em votação na Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, mas os kiriris, ao lado de índios de outras etnias e organizações de apoio, conseguiram a rejeição da proposta, fazendo valer o argumento de que se tratava do centro da terra indígena já demarcada. A proposta de emancipação do distrito, porém, prevaleceu com a transferência de sua sede para um núcleo exterior à área indígena: o povoado de Banzaê. O novo município de Banzaê, fundado em 1989, tinha cerca de 13 pequenos povoados, oito dos quais indígenas, correspondentes a cerca de 75% da área total do município. Logo, Mirandela se tornaria uma frente de resistência da luta dos kiriris pela reconquista de suas terras.

Em meio à grande pressão e conflitos entre índios e posseiros, um forte temporal, em 1989, seguido de enchente, destruiu grande parte dos casebres indigenas nos agrupamentos de Sacão, Cacimba Seca e da Lagoa Grande. Liderados pelo cacique Lázaro, os indíos acamparam-se junto ao cemitério, no entorno de Mirandela, onde mantiveram-se durante seis anos. Essa presença tão próxima gerava dia após dia maior tensão diante de uma eminente invasão do povoado pela reconquista do ponto central de sua aldeia. Finalmente, em 1995, após o agravamento do conflito, seguido da morte de um indigena, a Polícia Federal foi enviada à localidade, dando início a um longo processo de retirada e transferência dos fazendeiros, posseiros e outros antigos intrusos da terra kiriri. Desde então, o dia 11 de Novembro – dia exato em que os Kiriris entraram vitoriosos em Mirandela – é marcado a cada ano pela celebração da reconquista.

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Uma vitória lenta e silenciosa, cujo tempo deixou valentes guerreiros caídos ao longo do árduo caminho de uma luta desigual.
É mais de meio dia quando, sob o sol escaldante que não foi capaz de desviar a atenção do público kiriri, o cacique Lázaro se põe de pé e inicia seu discurso:

Os kiriri tem sua história de luta e vitória, tem seu valor. Por isso, meus amigos, vamos amar e respeitar nossa cultura. E como índios, brasileiros, pisamos forte em nossa terra, e é daqui que tiramos nosso poder, nosso desenvolvimento. Aqui, nesse torrão, foi onde nós nascemos e onde nos criamos. Por isso, meus companheiros, vamos hoje nos sentir felizes, diante de nosso Pai, nosso Criador, diante de nossa luta e nosso trabalho. Peço a vocês que amem e respeitem a nossa cultura. Lembrem do dia de hoje, do sofrimento que passou aqui. Foi passado fome, sede, frio, calor, passado também raiva, também passamos alegria … Hoje estamos felizes porque contamos nossa história e nossa história é muito longa, difícil. No futuro, nossos netos vão lembrar o que seus pais e avós deixaram para eles: o amor a sua cultura. Por isso, índios, de pele bronzeada e olhos de amêndoa, não temam, não tenham medo de enfeitar seus cabelos com nossas folhas. Não fraquejem. Vamos continuar com a nossa cultura.

No fim da tarde, algumas estrelas voltam a povoar o céu. Liderados pelo pajé, os kiriris iniciam a dança sagrada do Toré, expressão viva de sua cultura ancestral. Em fila indiana, todos serpenteiam em círculos pelo chão da praça. Maracas e mesclas de cantos num idioma já supostamente original ecoam pelo ar rarefeito de nova esperança no futuro.

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A gente vai segurar e resgatar nossa cultura, nosso modo de viver. A gente tá retornando, com os professores indígenas, com as rezadeiras; É difícil, mas com esforço nossos filhos e netos podem entender o valor da cultura de um povo nativo. Nós temos nossa sabedoria, que ficou escondida, o saber ficou escondido, porque o não-índio colocou um pano preto nos olhos e não enxerga a gente.

Nem cutucando, nem com tanta perseguição, tanto massacre… 500 anos de massacre, mas o índio permanece, é um caminho de luz, amor, paciência“, diz o cacique.

Isso aqui“, referindo-se à  canga que usa, “não é palha, corda nem fibra, isso aqui significa 500 anos de resistência…“.


VEJA AS FOTOS DA CELEBRAÇÃO KIRIRI:

On November 11, 1995, the Kiriri tribe reclaimed Mirandela village, part of an Indian reserve in the northern state of Bahia, Brazil, which had been occupied by non-Indians for many years. Ten years later, on November 11, 2005, they remembered this significant date, remaking the passage for reconquering. | Audio recording of the “Toré” kiriri’s rite: Rafael Campos

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Texto: Antonio Gabriel Marques e Lunaé Parracho
Fotos: Lunaé Parracho
( história  publicada
na Revista Terra, sob o título “Uma cidade para os índios” )

Written by Lunaé Parracho

January 19th, 2006 at 9:22 pm

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One Response to 'Kiriri'

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  1. Estou somente Kiriri em Englaterra…x….

    matheus

    6 Feb 10 at 12:41 pm

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