Há poucos dias, em Brasília, pudemos ouvir Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás, e naquela noite, palestrante no I Seminário Bahá’í de Mídia.
“A comunicação abarca (e impera sobre) todas as esferas de nossas vidas; a televisão, por exemplo, educa as crianças antes mesmo de elas aprenderem a falar e serem alfabetizadas. Educa através das imagens, mesmo ao ‘deseducar’, educa ao contrário: mesmo quando “ensina” pré-conceitos e incute o desejo de consumo.
Expondo sobre a lógica da comunicação que educa para o consumo: “No ato de fé, o indivíduo entrega parte de sua vida ou mais do que isso para o Deus que ele não compreende racionalmente em sua totalidade. Mas as igrejas hoje, colocam “deus” dentro dos projetos de cada indivíduo, quase sempre voltados ao consumo.” “Na política, um marqueteiro hoje vale mais do que dez ideólogos… O que mais preocupa os partidos na construção de alianças, por exemplo, é quanto tempo total de televisão terão. Isso se tornou fundamental para os partidos nas campanhas: ter mais tempo na tv e aparecer bem durante esse tempo.”
Propondo que “A guerra do Iraque começa com a adesão dos meios de comunicação a uma tese mentirosa… A mídia faz a diferença entre a paz e a guerra” e a ‘antecipação’ da máxima: ” A verdade é a primeira vítima da guerra”, concluindo que
“só depois que a verdade é vitimada é que a guerra é possível”…
“A mídia não é mais o veículo que informa sobre a guerra, ela é o ambiente em que se ‘legitima’ a ação belicosa…”
Defendendo que precisamos assumir uma visão “de longe” do fenômeno da mídia: ” Nós vivemos dentro de uma baleia e é preciso ver a baleia do lado de fora”, falou sobre a necessidade imperativa de “nivelar o conhecimento das pessoas. A assimetria da informação é origem da opressão”.
“A guerra hoje é construída na mídia”, disse, “mas não por senhores da guerra que manipulam consciências”, os que ‘fazem’ a mídia não tem o controle, “eles também estão subtraídos de si mesmos. Ninguém tem o controle da comunicação. A comunicação não é algo que a gente controla. Não é mais… Ela é que nos controla”…. “Saber disso é um passo terrível, mas necessário para que possamos imaginar um campo de ação fora desta “baleia”.
Como Saramago dizia em “Janela da Alma” (de João Jardim), “Estamos dentro da caverna de Platão. Vemos sombras da realidade projetadas dentro da caverna e a realidade está lá fora.”
“Estamos cercados de imagens em profusão, que são representações da realidade.”
“Nós somos uma sociedade da imagem, não meramente da informação. Por isso, a televisão é importante: porque processa a comunicação pela imagem em um mundo ‘mediado’ pela imagem”, e questionou:
“Como as imagens assumiram a condução do nosso entendimento?”
— “O atentado terrorista no olhar” —
” Todos nos tornamos mutilados de guerra pelo olhar, no 11 de Setembro” (…) Vocês lembram onde estavam e como foram buscar uma tv no momento em que acontecia o ataque terrorista às torres gêmeas. Porque um ‘ícone’ nos foi arrancado. E só “é real” aquilo que nosso olhar percebe. Nos foi arrancada uma pilastra que estava no nosso imaginário. “É como espetáculo que essa civilização funciona, da economia à guerra e é como espetáculo que a imagem exerce sua tirania sobre nós.”
— “Como intervir nesse contexto do espetáculo?” —
“A ética da comunicação tem que ser pensada dentro desse panorama e quando a gente fala de ética, a gente fala da escolha entre duas condutas igualmente legítimas, justificadas. A ética não se trata de escolher entre o crime e a legalidade. Isso é direito penal. Está óbvio que não se deve roubar, por exemplo.”
“A comunicação da democracia, para a paz, só pode se basear na idéia de abastecer as pessoas da melhor informação que se puder apurar, para que as pessoas possam livremente tirar as suas conclusões.”
“Uma comunicação pelo diálogo (A tragédia da guerra hoje é a tragédia do não-diálogo). Respeitando o direito à informação e respeitando a diversidade, levando dignidade, diminuindo assimetrias de informação, pessoas morrem no Brasil por falta de informação.
“É possível construir a paz com uma comunicação desinteressada. (…) Somos servidores da sociedade, estamos à serviço daquele que tem direito à informação. Há o que fazer dentro da barriga da baleia. Há como atuar, com menos propaganda e mais serviço.”
—–

Comunicado emitido pela Reuters anunciando que estava tirando 920 fotos do seu catálogo e expulsando o seu colaborador freelancer Adnan Hajj, que cobria a guerra no Líbano e foi descoberto manipulando digitalmente imagens do conflito
(toda a história no Globo).
No caso divulgado, ele aumentou o contraste e enxertou novos elementos para tornar mais densa a fumaça que pairava sobre Beirute após um bomabardeio. ” A fumaça mais escura continha o drama necessário para vender a foto”, imagino que tenha pensado. Sites de grupos judeus defendem a teoria de uma “ofensiva” deliberada da Reuters para “exagerar o sofrimento libanês” com o intuito de manipular a opinião pública e forçar Israel a parar com os ataques (ex.: aish.com). Vale uma reflexão mais ampla, que ultrapassa o caso específico, sobre a manipulação e encenação do espetáculo. É certo que as informações visuais são processadas por incontáveis “filtros”, em tempo real e no pós processamento, e por isso a necessidade de pensar um olhar que “respeite a diversidade e o direito à informação”, um olhar desinteressado talvez…
Outras manipulações e encenação da tragédia em fotos na mídia, capturadas pelo blog, drinking from home :

“A Lebanese woman wails after looking at the wreckage of her apartment, in a building, that was demolished by the Israeli attacks in southern Beirut July 22, 2006. REUTERS/Issam Kobeisi” (from Yahoo News)

“A Lebanese woman reacts at the destruction after she came to inspect her house in the suburbs of Beirut, Lebanon, Saturday, Aug. 5, 2006, after Israeli warplanes repeatedly bombed the area overnight.(AP Photo/Hussein Malla)” (from Yahoo News)

‘As mesmas roupas, a mesma cicatriz na face esquerda, a mesma marca abaixo do olho direito. Duas fotos da mesma mulher, talvez até tiradas no mesmo dia.

Mais Fotos de “mulheres voltando para suas casas”, por Issam Kobeisy e Adnan Hajj (”capturadas” pelo blog drinking from home):

July 22, 2006. REUTERS/Issam Kobeisy

July 23, 2006. REUTERS/Adnan Hajj

July 24, 2006. REUTERS/Adnan Hajj

July 26, 2006. REUTERS/Issam Kobeisy

Aug 1, 2006. REUTERS/Issam Kobeisy

Aug 1, 2006. REUTERS/Issam Kobeisy

August 5, 2006. REUTERS/Adnan Hajj


1 Comment Received
Agosto 29th, 2006 @6:38 pm
a ivete é maneira soooooooooooooooo que tah muito pquena minha letra e ééé vlw xau xau!!!
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