
Em 27 de Setembro de 2007, O fotojornalista Adrees Latif cobria um confronto violento entre manifestantes e tropas do governo em Mianmar. Aproximadamente à 1:30 da tarde em horário local, fotometrou sua câmera canon 5D em 1/1000 de velocidade e f/7.1 de abertura, modo manual, ISO 800. Queria congelar a movimentação rápida e obter o máximo de profundidade de campo possível. 2 minutos depois teve início um tiroteio. Através da meia-tele 135mm, à certa distância, seus olhos perceberam uma pessoa caindo de costas. Instintivamente, seguiu fotografando e registrou o momento em que a bala perfura o corpo da vítima, com um soldado parado à frente do homem, apontando um rifle. No instante segundo, o homem já caído se estica, tentando filmar a multidão em disparada. Mais tiros. Mais duas fotos - uma do homem apontando a câmera para o soldado e em outra, sua face contorcendo de dor.
Todo o incidente durou segundos.
Adrees não fazia idéia de que aquele homem caído morrerria momentos mais tarde. Duas das fotos, distribuídas ao mundo pela agência Reuters, mostravam seu rosto e poucas horas mais tarde colegas japoneses identificaram o homem como sendo o repórter cinematográfico japonês Kenji Nagai.
A imagem de Nagai filmando mesmo após ter sido baleado dominou inúmeras capas de jornais e revistas internacionais e muito além de conter o drama do assassinato de um jornalista inocente, a foto comunica o drama de um povo inteiro, milhões de pessoas que sobrevivem na pobreza sob a mão pesada de governantes que se mantém no poder há décadas, prendem, executam, promovem o trabalho forçado, recrutam crianças para a guerra, proíbem a comunicação com o mundo externo e cometem toda sorte de injustiças impunemente.
A foto foi prêmio pulitzer, reverberou em todo o mundo e propõe muitas reflexões, especialmente sobre até quando o pensamento dominante de “cada um com seus problemas” ainda será o modelo mental que tenta justificar a omissão diante da injustiça evidente. O sofrimento de uma parte afeta o todo, num mundo interdependente, a participação internacional em uma situação como essa é necessária, urgente.
“…a place none of us has been…”
A imagem pode evocar na mente de alguns a música ‘walk on’ lançada há 7 anos pelo grupo irlandês U2: “All that you can’t leave behind” (O que você não pode deixar para trás). A canção é dedicada a Aung San Suu Kyi, líder da oposição ao regime ditatorial que governa Mianmar desde 1962 e ativista dos direitos humanos. Em 20 de Julho de 1989, Suu Kyi foi condenada pela junta militar à prisão domiciliar. Naquela ocasião foi oferecida à ela a liberdade se aceitasse deixar o país, ela, entretanto, recusou a proposta. (”You could have flown away / A singing bird in an open cage” - walk on/U2). Em 1991 foi premiada com o Nobel da Paz, mas não pode ir à cerimônia de entrega do prêmio porque cumpria pena. Foi presa várias vezes, somando mais de 12 anos de detenção, atualmente permanece com seus direitos limitados, sob prisão domiciliar.

Um de seus discursos mais famosos, “Freedom From Fear”, inicia com as palavras: “Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe quem o domina e o medo do flagelo do poder corrompe aqueles sujeitos a ele”. (“It is not power that corrupts but fear. Fear of losing power corrupts those who wield it and fear of the scourge of power corrupts those who are subject to it.”).
Mianmar (antiga Birmânia) tornou-se independente do Reino Unido em 1948 e é governada sob regime militar desde 1962, quando o General Ne Win desfechou um golpe de Estado. Seu sistema político é hoje mantido sob controle estrito de um Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento chefiado, desde 1992, pelo general Than Shew.
Com uma área total de 678 000 km², Mianmar é o maior país do sudeste da Ásia continental e o 39º maior do mundo. Seu território é um pouco maior do que a soma das áreas dos estados brasileiros de Minas Gerais e Santa Catarina. Com uma população estimada em cerca de 50 milhões de habitantes (estimativa imprecisa, já que o último censo parcial do país data de 1983), é um dos países mais pobres do Sudeste da Ásia e sofre há décadas de estagnação econômica, má administração e isolamento. O seu PIB cresce 2,9% ao ano, taxa considerada baixa em comparação com outras economias da região.
Em anos recentes, a China e a Índia têm se aproximado de Mianmar, com vistas a obter benefícios econômicos. Muitos países, como os EUA, Canadá e a União Européia, impuseram sanções comerciais e de investimento. O investimento estrangeiro é proveniente da China, Cingapura, Coréia do Sul, Índia e Tailândia. Ademais da produção de drogas ilegais, como ópio, a atividade econômica birmanesa inclui produtos agrícolas, têxteis, produtos de madeira, material de construção, pedras preciosas, metais e gás natural. Os arrozais cobrem cerca de 60% da área cultivada; o arroz corresponde a 97% da produção de grãos (por peso).
Em 1988, a má gestão econômica e a repressão política provocaram manifestações pró-democracia generalizadas. As forças de seguranças sufocaram as manifestações com a morte de centenas de pessoas.
Em 1989, o Conselho declarou lei marcial para lidar com mais protestos e alterou o nome oficial do país em inglês para Union of Myanmar (em português de Birmânia para Mianmar).
Em maio de 1990, o governo militar promoveu eleições livres pela primeira vez em quase 30 anos. A Liga Nacional pela Democracia, partido de Aung San Suu Kyi, ganhou 392 dos 489 assentos da Assembléia Popular, mas os resultados foram anulados pelo Conselho, que se recusou a deixar o poder.
O país vive constantes conflitos armados entre tropas governistas e grupos étnicos de guerrilha. Várias organizações de direitos humanos, inclusive a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, relatam casos de abusos do governo militar contra os direitos humanos e afirmam que não há poder Judiciário independente no país. Há relatos de trabalhos forçados, tráfico de pessoas e trabalho infantil, e o governo é conhecido por usar a violência sexual como instrumento de controle.
Em novembro de 2006, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) anunciou que procuraria processar na Corte Internacional de Justiça os membros da junta militar de Mianmar por crimes contra a humanidade, devido à prática de trabalho forçado de seus cidadãos.
Em Agosto de 2007, surgiram novos protestos pela democracia no país, chefiados por monges budistas e reprimidos com força pelo governo.
Desastre natural e falta de ação das autoridades deixa mais de 20 mil mortos e 1 milhão de desabrigados em Mianmar
No último dia 03, a passagem do ciclone Nargis por Mianmar, deixou mais de 20 mil mortos. Segundo a CNN, ao menos outras 41 mil pessoas estão desaparecidas em decorrência da passagem do ciclone, que atingiu Yangun –cidade de cerca de 5 milhões de habitantes e a maior de Mianmar– e a região do delta de Irrawaddy, no litoral do país.
“Até o sábado passado, a impressão entre os birmaneses era de que a situação deles não poderia ficar ainda pior. O país vinha afundando na pobreza e miséria, e, depois da repressão brutal aos protestos antigoverno em setembro passado, a perspectiva do fim do regime militar parecia ficar ainda mais remota. Mas ninguém poderia prever a catástrofe natural que os aguardava”, escreveu a anlalista Kate Mcgeown, da BBC.
De acordo com estimativas da ONU (Organização das Nações Unidas), mais de 1 milhão de pessoas estão desabrigadas. Há escassez de água potável, alimentos, remédios e abrigos. Grande parte das linhas telefônicas foram cortadas e em alguns locais, um galão de gasolina teve seu preço quadriplicado. O preço de vários alimentos também dobrou.
As trágicas consequências do desastre natural poderiam ter sido evitadas. A ONU afirmou que o alto número de mortos em Mianmar foi causado pela falta de um sistema de alarme para retirar a população em caso de emergência. “Um sistema de alarme antecipado é muito importante, pois um ciclone pode ser previsto com 48 horas de antecedência. Em Mianmar, as autoridades não tinham estabelecido um sistema deste tipo, que salvaria milhares de vidas”, disse Brigitte Leoni, porta-voz do escritório das Nações Unidas para a Estratégia Internacional de Redução de Desastres.
A porta-voz disse ainda que as autoridades birmanesas tinham em seu poder as informações oferecidas pelos satélites meteorológicos que advertiam sobre a chegada do ciclone. “Isso significa que, por não ter um sistema de comunicação e de alerta rápido, a população não foi avisada do que ocorreria e, por isso, não deixou a região”, disse ela.
– Agências humanitárias atuando neste momento em Burma:
* United Nations World Food Program
* Save the Children
* Burma Campaign
* ActionAid
* CARE
– Links:
* Mortos em passagem de ciclone ultrapassam 22 mil em Mianmar (Folha)
* Tragédia em Mianmar pode aumentar pressão sobre militares (Folha/BBC)
* Blog Reuters Photographers
* Aung San Suu Kyi (wikipédia)
* Mianmar, (wikipédia)


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