
Dentre as maiores alegrias que conheço, está essa de trocar idéias. E sempre me surpeende o resultado. Gosto como o gmail organiza a coisa: um email se torna um tópico, as respostas são agrupadas a ele como a discussão ou subtópicos e eles escolheram um nome feliz para chamar as mensagens: “conversas”. Conversas se desdobram das mais variadas formas, mas nada como aquelas que dão certo, quando diferentes camadas de entendimento e percepções se sobrepõem e interlaçam com um fluxo de informações que se atualiza, de diferentes fontes e algo próximo de um entendimento comum vai despontando no horizonte da conversação.
Sou grato por cada conversação dessas que pude participar e recentemente tenho vivenciado algumas boas. Essa última nasceu a partir de um anúncio da Reuters que diz o seguinte:
“Information that knows what you need, before you know you need it. / Introducing a better gut instinct./ THOMSON REUTERS / KNOWLEDGE TO ACT”
“Introducing information that thinks for itself. / In the world of information, unfiltered data is equal to chaos. / But what if information was vetted and analysed by experts? / And what if it could find you righ when you needed it most? / Then it wouldn’t just be information. / Then it would be knowledge. / The end of think. / The beginning of know. / As information continues to democratize, even the smartest algorithms aren’t smart enough. Thomson Reuters offers a more human intelligence. Every day, thousands of experts evaluete and refine our data. Lawyers, doctors, scientists, accountants - people who know what you need because they do what you do. So when our information reaches you, it’s not just conjecture. It’s knowledge you can act on.”
Logo de início, é possível que se faça esclarecer o significado do termo Gut Instinct e aí você encontra definições como essa: “I define intuition as the way we translate our experience into action. Our experience lets us recognize what is going on (making judgments) and how to react (making decisions). Because our experience enables us to recognize what to do … we don’t deliberately have to think through issues to arrive at good decisions [quickly].” (Gary Klein, autor do livro Intuition at work)
E logo descobre que gut é uma palavra usada para definir estômago e fica se perguntando porque faria sentido a alguém (por exemplo, aos americanos, que usam a expressão) pensar que a intuição vem do “estômago”… Você encontra um artigo sobre o assunto: Gut instinct isn’t science.
Eventualmente você estará falando com alguém que já jogou ou joga tênis e vai descobrir que as cordas da raquete são feitas de gut, dos tipos Natural ou Sinthetic e que gut é, de fato: TRIPAS.. E se estiver conversando com André Kano, vai descobrir que em questão de chacras corporais, e também nos estudos do corpo, a região do abdômen é sempre relacionada aos nossos instintos, ao BOI, ao TOURO, assim como a região do peito é a área das emoções, do LEÃO, e a cabeça, da razão, da ÁGUIA. Então faz sentido que um GUT INSTINCT esteja relacionado com tudo aquilo que fazemos sem mesmo termos de pensar para tal, é um conhecimento programado que prescinde de racionalização.
André remete de volta ao discurso da Reuters, que remete à reinvenção da internet por meio das mídias sociais, especialmente, pela possibilidade de todos serem produtores de conteúdo, o que cria o problema da exaustão informativa como descreve o anúncio da agência. Se isso for mesmo verdade, pelo menos como construção de discurso, a Reuters está mostrando o próximo passo necessário para a manutenção de uma rede onde todos produzem informação que é, justamente, lapidá-la, separá-la, organizá-la, mensurá-la, transformá-la em algo que possa ser apreendido por quem nela tiver interesse.
Pense um pouco, a mil por hora sobre mil coisas ao mesmo tempo, e constate que acabou de vez o desenvolvimento linear, o que parece ser a revolução é sempre seguido da contra-revolução e o próprio sentido da palavra revolução se desvanece, revoluções já aconteceram e estão para acontecer, enfim, acontecem todos os dias.
“Jakob Nielsen, falando da conclusão de uma de suas pesquisas, disse que quando deixamos que os usuários escolham para onde ir, 88% vão a um mecanismo de busca. Apenas 12% vão a algum site onde esperam resolver seu problema. Por exemplo, se pedirmos a alguém que encontre pacotes de viagens para o norte do país, é muito mais provável que ela entre no Google e faça uma busca, do que se lembre de algum site de determinada agência de turismo que ofereça esse tipo de pacote ou de alguma revista especializada em turismo.
Ele identificou uma mudança da forma como as buscas são utilizadas: as pessoas não mais usam a busca para identificar bons sites. Elas procuram por respostas.
“It’s a testament to the Web’s growth that users now view it as integrated whole and don’t bother with Web sites; they assume that anything they want to know is available somewhere. (….)
“For search engines, becoming the user interface to the Web’s embarrassment of riches is good news. It’s also good news for users, who can find answers by visiting a few search hits rather than enduring the obscure design and poor navigation found on many sites. But is this good for Web sites? Unfortunately not. There is very little value in giving answers to users who don’t know or care who provides the service.”
Dessa forma, com o foco saindo dos web sites, os portais sofrem um duro golpe em seu modelo de negócios, focado na venda direta de espaços publicitários que depende da visita do usuário às suas páginas.” (Rafael Campos, em “Portais, anúncios e a nova web“)
Logo podemos perceber que nessa mudança de comportamento está a chave do sucesso do Google, com seu investimento milionário em inteligência científica com intuito de melhorar seus “algoritmos” para que ofereçam respostas relevantes ao usuário logo nos primeiros resultados (mas que em última análise também dependem de suposições “humanas”, como uma que vimos um engenheiro do Google comentar: Eles descobriram que se as pessoas procuram por “aple”(com letra “a” miníscula querem saber de “maçã” e quando procuram Apple (com “A” maiúsculo) estão procurando pela empresa do Ipod - Coisa que não faz sentido em português, vide o título desse post… Mesmo diante dessa constatação, a busca hoje pelas duas variações da palavra retorna no topo os mesmos resultados relacionados à empresa).
Independente do site/meio, como Jakob Nielsen constatou, as pessoas procuram mais por resposta/informação. E nesse sentido, o Google e a Reuters trabalham na mesma “indústria”, o Google com a a filtragem matemática da informação e a Reuters com a filtragem humana (que também passa por filtragem de máquinas), com seus próprios profissionais somados a uma rede de parceiros, de agências menores espalhadas pelo mundo e produzindo informação. Nessa perspectiva, o anúncio da Reuters deve ter algo de reação ao Google… Assim como o Google anunciou com orgulho o Google News que edita, categoriza notícias de diversos veículos, em vários idiomas, sem intervenção humana, a Reuters anuncia com o mesmo orgulho exatamente o oposto. O Google News diz:
“O Google Notícias é um site automatizado de notícias… Tradicionalmente, leitores de notícias escolhem primeiro uma publicação e só depois procuram as manchetes que os interessam. Nossa abordagem é diferente: queremos oferecer opções mais personalizadas e uma maior variedade de perspectivas… Nossos artigos são selecionados e ordenados por computadores programados para avaliar, dentre outras variáveis, com que freqüência e em que sites um artigo é veiculado on-line. Resultado: as matérias são selecionadas sem considerar a linha editorial ou ideologia da fonte, e você pode ler diferentes perspectivas sobre o mesmo assunto…“
Afinal, muitos devem se perguntar porque deveriam pagar pelo noticiário segmentado e profissional da Reuters, se podem cadastrar alertas personalizados no google News gratuitamente (com muitas fontes que incluem também iformações da Reuters)?
A Reuters responde, num discurso onde uma das maiores agências de informação do mundo anuncia o diferencial do seu produto, diz, retóricamente, não trabalhar mais com informação e sim com conhecimento: Com dados refinados e avaliados por milhares de experts em diferentes campos de conhecimento, para que “quando a informação chegue até você não seja apenas conjectura e sim conhecimento, em cima do qual você possa agir.”
Não se pode deixar de perguntar: Existe alguma informação bruta, que não tenha passado por algum tipo de filtro até chegar em cada um de nós?
Não existe nenhuma informação bruta porque a informação, propriamente dita, é produto humano e, sendo assim, sujeito a todas as susceptibilidades próprias do homem. Daí se tira que não existe jornalismo objetivo, nem imparcial. Nesse ponto André sai com uma frase como essa: Todo ato de informação carrega em si uma subjetividade imanente a quem a produz, uma parcialidade irreprimível de quem a gera.
Não se pode deixar, também, de refletir sobre os critérios que podem definir as fronteiras entre conjectura e a informação/conhecimento proposta pela Reuters.
Voltamos os olhos aos padrões da W3C. Quando forem “universalmente” aplicados na internet (ou pelo menos se tornem mais poupulares), vão facilitar às máquinas (robôs dos mecanismos de busca que não param de varrer a rede nem um segundo, conhecidos como “bots”, “spiders”, “crawlers”) filtrar e categorizar a informação de maneira que faça sentido para nós, da maneira mais próxima possível do entendimento humano, de maneira semântica. Seria uma internet onde os dados são abertos e utilizam formatos comuns para integração e troca de documentos. E uma internet onde a linguagem utilizada para gravação desses dados se relaciona com o mundo real, o que permitiria a uma pessoa, ou uma máquina, a partir de uma base de dados, mover-se através de um infinito conjunto de diferentes bases de dados que estariam conectadas não por fios mas por serem sobre a mesma coisa, sobre o mesmo assunto, como explica o texto abaixo extraído do site da W3C:
“The Semantic Web is a web of data. There is lots of data we all use every day, and its not part of the web. I can see my bank statements on the web, and my photographs, and I can see my appointments in a calendar. But can I see my photos in a calendar to see what I was doing when I took them? Can I see bank statement lines in a calendar?
Why not? Because we don’t have a web of data. Because data is controlled by applications, and each application keeps it to itself.
The Semantic Web is about two things. It is about common formats for integration and combination of data drawn from diverse sources, where on the original Web mainly concentrated on the interchange of documents. It is also about language for recording how the data relates to real world objects. That allows a person, or a machine, to start off in one database, and then move through an unending set of databases which are connected not by wires but by being about the same thing.“
Por fim, em algum momento, você eventualmente se sente impelido a compartilhar a conversação e convidar mais pessoas à ela, em um blog, por exemplo, quem sabe ela continuaria. O texto que tenta sintetizar a conversa não tem autoria, talvez co-autoria ou múltipla autoria, e isso importa ao mesmo tempo que não importa, ele apenas está aí. E aí você percebe, numa busca rápida no Google, que muitas outras pessoas estão conversando sobre os temas entrelaçados e que tem gente até falando, isso em 2006, sobre “Era das Máquinas Espirituais“. Você possivelmente se junta a uma conversação permanente…


2 Comments Received
Junho 7th, 2008 @2:02 am
Muito interessante a dinâmica do post. (Lembrei do Six Degrees of Wikipedia http://www.netsoc.tcd.ie/~mu/wiki/ que, usando artigos da wikipedia, mostra a relação mais próxima existente entre dois assuntos distintos. Isso remete a como conversas se desenrolam em coisas aparentemente sem conexão nenhuma com o tema inicial.. mas tudo está interligado - e no máximo a seis graus de distância :P)
Uma direção fascinante disso tudo é entender como acontece o aproveitamento do conhecimento gerado em Rede. De que forma os ‘padrões’ de comportamento identificados nessa rede podem ser transformado em serviços úteis? Oferecer ferramentas para que a rede se auto-organize me parece a tarefa crucial.
Veja por exemplo como uma determinada #tag no twitter se propaga de forma tão rápida. E como isso potencializa minha comunicação com inúmeras pessoas desconhecidas sobre qualquer tema em tempo real! Um tecnologia tão simples, porém tão poderosa. E isso não foi gerado por uma empresa: a inovação veio de fora, contruiram ‘on top of it’. (’a inovação está fora, e não dentro da empresa’)
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Uma iniciativa interessante para além da W3C em direção a web semantica, é a do microformato (microformats). São pequenos padrões de código XML e XHTML que permitem à maquina ‘entender’ do que estamos falando, de forma a poder melhor organizar e servir essa informação pra nós ( http://marcogomes.com/blog/2006/microformatos-para-leigos/ )
Junho 11th, 2008 @2:23 pm
Para quem se acostumou a receber o conteúdo “pré-deglutido” da televisão, marcadamente gente da minha geração, vivenciar hoje a dinâmica da rede virtual exige evidentemente a superação de um paradigma vital… Prover-se de informação via internet requer um esforço muito maior do que o do controle remoto! Talvez não seja o mesmo que o esforço despendido na leitura, mas requer algum esforço para investigar, buscar, filtrar a informação. Possibilita liberdade de escolha, prioriza temas, conteúdos, mas também acentua a individualização e pulveriza a “poeira” virtual da frivolidade. A grande descoberta é você estar no comando do que elege, compra, consome em termos de informação. Me fascina as possibilidades de condução, manipulação, desta em relação à outra forma de comunicar, de difundir a informação. Mas assim como no mundo “real”, no virtual a democracia da informação ainda é frágil e carece de cuidados… Agora, que o youtube é a super-televisão, disso eu não tenho dúvida. Outro dia (sábado passado), a Zileide Silva se atrapalhou na apresentação do Jornal Hoje. Minutos depois, a cena estava no youtube, assistida e comentada aos milhares… Outros vídeos tiveram milhões de acessos. A disseminação é violenta e impressionante. A web está ganhando de goleada dela mesmo, mas ainda não há como dizer qual o sabor dessa vitória. Conversamos…
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