Escolha Decisiva
Um homem se apressa pela rua com a respiração ofegante. Você o intercepta e pergunta a ele para onde está indo. Ele responde: ‘Como eu posso saber para onde estou indo? Estou apenas seguindo meu caminho’. (…)
Premissas
Com a descrição da imagem acima, Lajos Egri inicia o texto The Art of Dramatic Writing (1946), onde aborda a produção de roteiros para o teatro e defende que por trás de cada história, deve haver uma premissa.
Nossa reação àquele homem apressado que segue seu caminho é de que ele está de alguma maneira perturbado. Segundo o autor “Cada simples invenção tem que ter um propósito, cada caminho planejado tem que ter um destino.” Ele segue sugerindo que essa simples necessidade, por incrível que possa parecer, não se tem feito sentir na escrita dramática, onde calhamaços de papel com milhares de palavras podem existir sem um objetivo e uma atividade efervescente pode sim ocorrer sem que ninguém saiba para onde está indo:
“Tudo tem um propósito, ou premissa. Cada segundo de nossa vida tem sua própria premissa, estejamos ou não conscientes disso o tempo todo. Essa premissa pode ser tão simples como respirar ou tão complexa quanto uma decisão vital, mas está sempre lá. Nós podemos não ser capazes de provar cada pequena premissa, mas isso não altera o fato de que havia uma. Nossa intenção de fazer algo pode ser impedida, mas a premissa existiu de qualquer maneira. A premissa de cada segundo contribui à premissa de cada minuto do qual faz parte, assim como cada minuto entrega um pedaço de vida à hora e a hora ao dia. E assim por diante. No fim, existe uma premissa para cada vida.”
Premissa, segundo o dicionário, é uma proposição suposta ou comprovada, a base de um argumento. Fato ou princípio que serve de base a um raciocínio ou a um estudo.
Premissa, no texto de Egri, incorpora o sentido de outros termos, em especial nas artes: tese, idéia central, root idea, meta, objetivo, força motriz, assunto, propósito, plano, emoção básica…
Root idea é o início do processo, que demanda uma “meta”, precisa de um “tema”, uma Premissa. “Como você pode saber que estrada seguir a menos que saiba para onde está indo? A premissa irá apontar a direção… Você tem que ter uma premissa para seu roteiro”, conclui Egris.
Premissas relacionadas à narrativa de imagens
Como a sistematização proposta pelo autor se relacionaria à fotografia?
Na origem do termo que a designa, a fotografia é explicada como escrita (grafia), estrutura de informação, ferramenta de comunicação, linguagem, um meio de contar histórias, relatar acontecimentos. Ao longo do tempo, no entanto, chegou a ser considerada uma representação equivalente a própria realidade, sendo inclusive usada como evidência nos tribunais. Em nossa interpretação do mundo, em parte mediada por imagens, somos eventualmente levados a atribuir o peso da verdade à fotografia. Grande parte do que conhecemos, conhecemos através de imagens.
Fundir a fotografia com a realidade é um processo intuitivo e se considerarmos que diferentes fotógrafos tendem a produzir diferentes imagens de um mesmo acontecimento, seremos levados a encarar a fotografia como um recorte da realidade ou, em outras palavras, um pedaço da história. Para a escritora Susan Sontag “Escrever é comparável à fotografia. Escolhe-se algo para enfocar, deixando-se muita coisa de fora. Um outro trecho da paisagem, um outro enfoque, daria uma foto totalmente diferente”.
E, diante de diversas fotos de um mesmo evento ou lugar, é fundamental perguntar: Existe uma dentre elas que reporta ou traduz com mais precisão a realidade?
Essa pergunta tem sido feita muitas vezes. Mais recentemente, uma iniciativa sem fins lucrativos chamada Dropping Knowledge postou vídeos no youtube durante a cúpula do G8, questionando a cobertura do encontro: “Move Merkel“ e “What are the usual pictures?“
Henri Cartier Bresson acreditava que sim, uma foto pode capturar o “momento decisivo”, sendo este “o reconhecimento simultâneo, em uma fração de segundo, do significado de um evento e da precisa organização das formas que dão ao evento sua expressão própria”.
Sobre a “organização das formas ” citada, Clive Bell, em seu ensaio Art, declara que “formas significativas” podem distinguir o que é arte do que não é arte. Ele descreve “linhas e cores combinadas de uma maneira particular, certas formas e relações entre as formas” que despertam nossas “emoções estéticas”.
Para efeito da aplicação das premissas, no entanto, chama a atenção o outro ponto, em que para Bresson seria possível ao fotógrafo capturar a realidade, traduzir no registro de uma imagem o “significado de um evento”, ou seja, seria possível alcançar uma espécie de composição perfeita, organizando as formas, elementos que dão ao evento sua própria expressão.
Carlos Drummond de Andrade, em sua poesia dedicada ao fotógrafo Evandro Teixeira, atesta que a fotografia extrai do real “um mais seco real”. Se assumirmos a possibilidade de realização do momento decisivo, seria a busca deste uma premissa universal com a qual todos os fotógrafos poderiam trabalhar cada uma de suas fotos? Há um significado único que se possa buscar transmitir para cada evento? Bresson, que nos anos finais parou de fotografar e passou a pintar, recluso em seu apartamento em Paris, não demonstrava muita disposição em explicar seu trabalho monumental, pelo que se vê em algumas poucas entrevistas que deu então. Chegou a comparar a fotografia com a pintura e teria declarado sobre uma de suas fotos: “Eu estava lá e isto é como a vida me pareceu naquele momento.”
Parece claro que naquela fração de segundo de Bresson, o que o fotógrafo tenta reconhecer é o “significado de um evento” para ele, ou seja o significado que ele atribui a um evento. Ele estaria comprometido com a informação que decide transmitir sobre o que está fotografando. Assumindo que essa decisão seja pessoal e que não é necessariamente a tradução exata da essência daquele assunto, se é que isso existe, caberia perguntar:
Os fotógrafos são conscientes dessa escolha que fazem durante o ato fotográfico?
O processo que leva à definição da premissa para uma foto pode ser sistematizado? Ele necessariamente envolveria discussão prévia ou poderia surgir enquanto se fotografa?
Talvez não ocorra com freqüência aos fotógrafos desenvolver a prática de questionar a si mesmo sobre a premissa de cada foto. A mim não havia ocorrido até agora e na maior parte do tempo considerei o ato fotográfico como um fim em si mesmo. Já ouvi de muitos colegas sobre isso. Um deles chegou a comparar o ato de fotografar à “calçar um sapato velho” e por mais esdrúxula que pareça a comparação, tem a ver com esse não-questionamento.
O fotógrafo quase sempre atua ‘em tempo real’ e seria decisiva sua capacidade de definir com rapidez uma premissa que o guie em sua composição, que o ajude a ter clareza enquanto “recortar a realidade”. Em poucos segundos, um fotógrafo é capaz de tomar várias decisões técnicas implicadas em cada clique, mas seria capaz de racionalizar o processo de definição da premissa? Como isso ocorre? Se não for capaz de fazê-lo, teria necessariamente que defini-la antes, tendo tempo para coletar e organizar dados e para manter contato com diferentes pontos de vista (o que um escritor ou repórter de texto, por exemplo, pode realizar após o acontecimento)? Se não o fizer, seus paradigmas anteriores e modelos mentais se encarregam então desse trabalho?
Em algumas relações de trabalho, ao fotógrafo caberia produzir imagens em cima de uma premissa definida anteriormente por outro, como um editor de um jornal ou revista. Nesse caso não importa o que ele fosse encontrar nas ruas de Salvador durante o carnaval se ele tem que produzir uma imagem baseado na premissa de que “o carnaval é uma expressão da alegria do povo baiano”, que assume, primeiro, a generalização de que o povo baiano é alegre e segundo, pressupõe que o carnaval expressa isso. A foto, nesse caso, precisaria contar a história através de uma perspectiva específica.
Lajos Egris defende que “cada boa peça deve ter uma premissa bem formulada… Uma premissa confusa é tão ruim quanto não ter premissa alguma… Você precisa de uma premissa – uma premissa que o guie até a meta que sua peça pretende alcançar… É possível que uma emoção se descubra uma meta em si e surpreenda até o autor. Mas isso é um acidente e queremos eliminar a sorte e o acidente. Nosso objetivoé apontar uma estrada na qual qualquer um que escreva possa viajar e eventualmente se encontrar com um aproach seguro para o drama.”
Voltando ao momento decisivo, é possível que ele seja um fenômeno raro, como o acidente do texto de Lajos Egri, capturando significações universais, que extrapolam limites culturais, políticos e históricos. Mas, se não vamos contar com acidentes, poderia ser útil nos dedicarmos a pensar sobre a “escolha decisiva“.
Durante anos, desde que a escola norte-americana fundou o LEAD e criou a utopia da objetividade, a academia e as redações se debruçam diariamente nas contradições impostas pela dicotomia objetivo-subjetivo. Seu texto, creio, fala um pouco sobre isso. O título ESCOLHA denota já a carga de subjetividade inerente à questão que você aborda. Por isso creio que está em voga tudo aquilo que você aponta nele, mas a pergunta que ele deixa em aberto, e também a pergunta que jornalistas ainda não souberam responder é:
O jornalismo deve ou não evidenciar ao público as premissas que fazem veículos de comunicação escolherem diariamente suas versões de momentos decisivos? Em outras palavras, deve ou não se assumir subjetivo? Se não, o que garante que a objetividade que ele a si atribui é de fato o caminho a seguir? Se sim, como evidenciar essa mudança paradigmática sem perder credibilidade a ponto de solapar toda a indústria da informação?
Enfim, lembremos dos fenômenos relativos às mídias sociais. O que estamos vendo é uma opção de milhares de internautas pela subjetividade dos conteúdos produzidos por eles mesmo em detrimento da suposta objetividade dos conteúdos produzidos pelos veículos oficiais de informação.
André Kano
7 Jul 08 at 2:25 pm