Oficina

toda chuva que há

without comments

maranhao-01

Milhares de desabrigados com as enchentes no Maranhão.
Dezenas de municípios atingidos.
A prefeitura da submersa Trizidela do Vale cogita mudar o município de lugar.

Era fim de tarde quando chegamos, uma rua submersa em Bacabal, no interior do Maranhão. Raquel, 10 anos, brincava mergulhada no que hoje é água. Ela nos segue com o olhar e não fala muito. Haviam duas canoas paradas, nas quais um senhor ofereceu para nos levar, mas a profundidade era pequena ali. Seguimos caminhando na água e lama até alcançar a casa de dona Salomé. No meu íntimo, fiquei aliviado por não estar vestindo calças impermeáveis ou botas especiais. De alguma forma, sentia que isso me deixaria constrangido, pesado, como um alienígena chegando em outro planeta. Na maior parte do tempo, havia apenas o silêncio e o som do caminhar submerso, e remos também, de canoas cortando a água como se fossem rios as cidades. O movimento lento, como se o tempo estivesse do avesso. “Quando amanheceu assim, foi a pior hora que eu já achei, aqui ninguém tava esperando essa enchente. Aqui tristeza teve demais, a agonia foi de todo mundo”, nos diz Salomé Araújo, 44.

maranhao-02

maranhao-03

Num abrigo improvisado em uma das cidades, com lonas em uma área que era usada para exposição agropecuária, estavam vivem mais de 200 famílias, há mais de um mês. Com tanta água em toda parte, o lugar só tem uma torneira de água potável pra todos.  Joedna da Silva, 17, está grávida de 9 meses, no dia anterior, o marido havia se separado dela, que foi morar com a mãe em um barraco no abrigo. “Quando chove aqui molha tudo, o vento falta rasgar a lona. Queria que viessem mais aqui pra ver nossa situação”, ela diz, “eu acho que é o fim do mundo chegando. Tanta água em um lugar e falta tanto em outra cidade.”

Uma senhora passa caregando um balde de água para casa onde mora com as duas netas e o filho. E volta na torneira coletiva mais de 10 vezes por dia. A água é utilizada para beber, lavar louça, cozinhar e tomar banho. “Já deu até briga por causa da água”, conta, sobre a fila que eventualmente se forma na bica. Diante da possibilidade de mais chuvas, Irene Rufino, 44, confessa: “tenho medo, muito medo” e conta ter recebido até aquele dia, apenas 2 cestas básicas de ajuda e alguns remédios pra dor de cabeça e febre. “O barraco (no abrigo) é muito ruim, a gente se sente mal, é uma agonia grande. Mas essa enchente foi dada por Deus. A gente tem que se conformar, todo mundo”, conclui, quase ecoando uma versão maranhense da súplica, nordestina, naquela música. E enquanto ouço dona Irene falar, sou completamente incapaz de dizer a ela qualquer coisa. Menos ainda, relatar o que ela vive. Não tenho nada senão o desejo de que todos pudessem vir aqui, estar com essas pessoas, ver com seus próprios olhos.

“Oh Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair, cair sem parar

Oh Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso que o sol se arretirou
Fazendo cair toda chuva que há

Oh Senhor, eu pedi para o sol se esconder um pouquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta, uma planta no chão

Oh meu Deus, se eu não rezei direito,
A culpa é do sujeito
Desse pobre que nem sabe fazer oração…

Política demais
Tristeza demais
Ganancia demais
A Fome demais
A Falta demais
Promessa demais
Seca demais
Chuva tem não tem não tem é demais
Pobreza demais
Povo tem demais

(letra da música “súplica cearense”)

maranhao-04
================
Fotos: Lunaé Parracho / Greenpeace

Não deixe de ver esse vídeo.

Written by Lunaé Parracho

June 20th, 2009 at 3:18 am

Posted in Oficina

Tagged with ,

Leave a Reply